Dermatite Da Fralda
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CIM
Dermatite da Fralda
ficha técnica n.º 67
Dermatite da Fralda (DF) é a designação dada à condição inflamatória localizada na zona da pele do bebé que está em con-
tacto com a fralda,1-6 abrangendo a região do períneo,1 nádegas, abdómen inferior e coxas.1,7 Constitui um dos problemas
mais frequentes do bebé durante o seu primeiro ano de vida.3
Algumas crianças parecem ser mais propensas que outras relativamente ao desenvolvimento da DF.3,8 Em muitas crianças
a DF poderá representar um primeiro sinal de predisposição a problemas crónicos da pele (ex.: dermatite atópica).5
A DF pode também constituir uma manifestação de outro tipo de patologias, tais como: síndrome de Kawasaki, granulo-
ma glúteo infantil e infecção por citomegalovírus. Crianças filhas de mães imunocomprometidas deverão ser consideradas
como tendo um risco acrescido para manifestações pouco usuais de DF.1
Geralmente a DF é tida como um problema pediátrico; contudo, os adultos incontinentes estão também em risco de apre-
sentar dermatite, que é em tudo idêntica à DF.1,7
Factores de Risco - Há uma série de factores que se podem combinar aditiva ou sinergisticamente,1 podendo o agente
causal ser diferente de doente para doente:2
A oclusão,1,2,4-7,9 causada pelo uso de fraldas demasiado justas e ásperas, ou de coberturas plásticas ou elásticas,1 está
na origem da maceração e irritação cutâneas, por decréscimo da circulação de ar e aumento da humidade na zona da fral-
da.6,7 Este acréscimo de humidade1-7,10 torna a pele hiper-hidratada, ou seja, mais susceptível à irritação e à absorção de
compostos químicos.1,6
A fricção1-3,6,7 confere à pele uma maior susceptibilidade à ruptura devido ao atrito gerado entre a sua superfície e a fralda.7
O contacto prolongado da pele com a urina e/ou fezes contribui para o aparecimento da DF.1,3,6
As bactérias,1-4,6,7,10 entre as quais as bactérias do cólon, são responsáveis pelo desdobramento da ureia em amónia.1
A amónia1,2,4,5,7,10 eleva o pH cutâneo, tornando a pele mais susceptível ao dano e à infecção;1,7 é também considerada
uma substância irritante e cáustica para a pele.1
As fezes contêm enzimas gastrintestinais1,7,9,10 (lipases e proteases) e sais biliares que podem também contribuir para
a DF. Há dados que confirmam que as crianças amamentadas pela mãe são menos susceptíveis ao aparecimento da DF. De
facto, as fezes destes lactentes são menos abundantes, menos alcalinas e menos cáusticas para a pele.1
Os resíduos químicos ou detergentes de lavagem presentes nas fraldas,1,5,6 os sabões, ou mesmo alguma loção que
tenha sido aplicada directamente na pele, podem também considerar-se substâncias potencialmente irritantes.6
Os medicamentos1,6 podem afectar a motilidade e a flora intestinais, assim como o controlo autónomo da urina e fezes.
Alguns podem mesmo ser irritantes ao ser eliminados pelo organismo. Os antibióticos podem provocar diarreia secunda-
riamente às alterações da flora gastrintestinal, o que poderá estar na origem da DF1.
O papel da Candida albicans no desenvolvimento da DF ainda se encontra pouco esclarecido.2
Sinais e Sintomas – De um modo geral, a DF é caracterizada por manchas e lesões de coloração vermelha, por vezes
brilhantes e com aspecto molhado. Nas peles negras estas manchas apresentam uma cor castanha escura ou púrpura.1
Normalmente, a DF ocorre nas áreas da pele em contacto directo com a fralda,1-5,7 sendo menos evidente nas pregas in-
guinais.4,5,7,9 Nos casos mais graves, a erupção pode mesmo alastrar para fora da zona da fralda.1
Regra geral as lesões são evidentes e não originam qualquer dúvida quanto ao diagnóstico,3 no entanto, é importante a
realização de um diagnóstico diferencial, de forma a distinguir a DF de outras condições da pele, tais como: candidíase1,2,
dermatite seborreica,1,2,8 psoríase1,2 ou dermatite atópica,2,3,8 que podem mesmo coexistir com a DF.1
Complicações – Uma DF não tratada ou infectada pode evoluir para a maceração e exsudação,1 formação de pápulas, ve-
sículas ou bolhas, erosão ou ulceração da pele,1,5,9 infecção do pénis ou vulva e infecção do tracto urinário, podendo mesmo
ocorrer adesão ou cicatrização dos genitais.1 A alteração do pH da pele pode despoletar o desenvolvimento de infecções
oportunistas de origem bacteriana (Streptococcus ou Staphylococcus), fúngica (leveduras) ou viral (herpes simplex).1
Se a DF persistir durante 3 ou mais dias, a possibilidade de ter ocorrido candidíase é elevada,7 uma vez que a humidade e
a temperatura na zona da fralda a tornam propícia ao desenvolvimento de fungos.4 A própria candidíase oral pode também
precipitar esta infecção na zona da fralda.1,4 A sobreinfecção por Candida albicans manifesta-se clinicamente pela presença de
um rash vermelho intenso,4,6,7 de contornos bem definidos mas irregulares,4 associado a lesões satélite típicas desta infecção
fúngica.4,6,7,11 A infecção inicia-se, geralmente, na área perianal7 e diferencia-se da DF simples porque ocorre envolvimento
das pregas inguinais4-7 e dos genitais.6 A sua incidência tende a aumentar após administração oral de antibióticos.10
Prevenção e tratamento
Os passos dados na prevenção da DF ou no tratamento das suas apresentações mais ligeiras ou moderadas são basica-
mente os mesmos, sendo que o melhor tratamento para a DF é a própria prevenção.1
Abordagem não farmacológica:
– mudança frequente da fralda,1-11 pelo menos 6 vezes por dia,1 de preferência após as refeições.3 Manter a criança o maior
tempo possível sem fralda poderá ser benéfico,2-9 principalmente nas crianças que apresentem episódios repetidos de
DF,2 ou para promover a cicatrização, no caso de a DF já estar presente;3,4
– evitar colocar coberturas de plástico sobre as fraldas de pano;1,5,7-9
– usar fraldas descartáveis absorventes,2,6,7,9,10 transpiráveis e não oclusivas.3 Há, contudo, autores que referem que as
fraldas descartáveis demasiado absorventes poderão contribuir para a oclusão da pele;1
– higiene cuidada da zona da fralda, que passará por limpeza suave da pele em cada muda de fralda com auxílio de algo-
dão e água4,10 ou com um sabão suave;2,7,8 a pele deverá estar seca antes de se colocar a nova fralda.6,7
Abordagem farmacológica:
É um complemento a uma boa higiene e a boas práticas de muda da fralda, devendo a exposição aos fármacos ser redu-
zida sempre que possível.1
Os protectores da pele são os únicos compostos considerados seguros e efectivos para utilizar na DF sem supervisão
médica, daí que o seu uso tanto na profilaxia como no tratamento da DF seja aceitável.1,10 Estes produtos funcionam como
uma barreira física entre a pele e os irritantes externos, protegendo as superfícies cutâneas em processo de cicatrização.1
Dos vários produtos existentes no mercado para tratamento da DF, constam um ou mais dos seguintes princípios activos:
alantoína, calamina, óleo de fígado de bacalhau, dimeticone, caulino, lanolina, óleo mineral, talco, amido de milho, vase-
lina e óxido de zinco.1,7
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Em cada muda de fralda é recomendável aplicar um produto protector,2,3,6 sendo usadas formulações, como: pomadas não
perfumadas à base de vaselina, que formam uma barreira protectora cutânea que ajuda a prevenir a DF4 e pastas ou pastas
de água com óxido de zinco,2 ou cremes barreira com óxido de zinco,4,5,11 que são úteis na prevenção de recorrências5,11 e
tratamento das formas mais ligeiras da DF.4,11 Em alternativa, agentes protectores na forma de pó, tais como: amido de
milho,1,6 óxido de zinco2 ou talco, poderão também ser usados para minimizar a fricção,1,2,6 devendo ser tomadas as devidas
precauções aquando da sua utilização (ver ACONSElHAmENtO).
As formas mais severas poderão ser tratadas usando pequenas quantidades de um corticosteróide tópico de baixa potên-
cia, tal como a hidrocortisona 0,5 % a 1%,4,6 que deverá ser aplicado na área afectada 2 vezes ao dia,6 até uma semana,6,9
de modo a reduzir ou eliminar a inflamação.2,9
No caso de sobreinfecção por Candida albicans, o que é muito frequente, são utilizadas preparações tópicas com antifún-
gicos,2 como por ex.: a nistatina,4,6,10 ou o clotrimazol.6,10
Os antibióticos tópicos só devem utilizar-se em caso de sobreinfecção bacteriana, uma vez que o seu valor profiláctico
não está demonstrado e a sua aplicação sobre a pele irritada pode mesmo agravar o quadro de DF.2
Aconselhamento
Para além dos conselhos já referidos anteriormente, o farmacêutico deverá ainda alertar no sentido de:
– evitar usar sabões4 e determinadas marcas comerciais de toalhetes de limpeza,1,4,6,7 que contenham na sua composição
álcool, sabão e outras substâncias que irritem a pele,1,7 principalmente num caso activo de DF;4,6,7
– não limpar a criança com qualquer parte da fralda, mesmo que algumas zonas “pareçam” limpas;1
– não lavar as fraldas de algodão com detergentes ou sabões que possam ser irritantes e agravar a DF ou mesmo causar
dermatite de contacto, e evitar as fraldas demasiado engomadas e duras pois podem danificar a pele;1
– recorrer ao aleitamento materno sempre que possível;11
– manter os pós afastados da face da criança durante a sua aplicação, pois a criança poderá desenvolver uma pneumonia
química após inalação das partículas. Os pós deverão ser aplicados: ou próximo do corpo da criança e afastados da sua
face,6,7 ou directamente na fralda,6 ou agitados sobre as mãos do educador e aplicados sobre a área da fralda;1,7
– aplicar o creme ou a pomada em quantidades suficientes de forma a cobrir bem a área afectada;1
– não aplicar pós contendo óxido de zinco,2 amido de milho, caulino7 ou talco em peles danificadas,1,2,7 uma vez que estes
podem aglomerar-se nas feridas desencadeando uma infecção ou retardando a cicatrização;1
– evitar os produtos protectores da pele que contenham na sua composição determinadas substâncias, como por ex.:
benzocaína (pode provocar uma reacção alérgica),1 cloreto de benzetónio1,7 (os antibacterianos não estão adequados na
DF), bicarbonato de sódio1 e ácido bórico1,7 (devido a relatos de toxicidade com ambas as substâncias);
– os analgésicos de uso externo, como por ex.: fenol, mentol, salicilato de metilo, capsaicína,1 cânfora e eucaliptol,7 não
estão recomendados, pois ao serem absorvidos através da pele macerada podem provocar alterações na percepção sen-
sorial das crianças, para além de poderem agravar a DF;1,7
– a hidrocortisona está indicada nas irritações mínimas da pele mas não deverá ser usada na DF sem supervisão médica,
uma vez que pode suprimir a resposta imunitária local. Para além disso, a absorção da hidrocortisona é favorecida quan-
do aplicada numa pele macerada ou numa grande superfície cutânea, o que pode conduzir a níveis terapêuticos tais que
interfiram com os eixos pituitários-adrenais da criança.1 Quando usados na DF, os corticosteróides tópicos de elevada
potência podem originar o granuloma glúteo infantil, que se caracteriza por nódulos de cor violeta ou púrpura com 2 ou
3 cm de diâmetro.2
O doente deverá ser remetido para o médico se a DF se manifestar com uma ou mais das seguintes características:
– complicou-se com uma infecção secundária (viral, bacteriana, fúngica);1,7
– está presente há mais de 7 dias ou se passados 7 dias não se verificam melhorias, apesar de tratamento adequado;
– encontra-se associada a sintomas sistémicos (ex.: febre, diarreia, náuseas, vómitos, rash ou lesões da pele em outras
partes do corpo);
– se a pele afectada sangra ou liberta pús;
– encontra-se associada a dor ao urinar ou defecar;
– se o rash alastra para fora da zona da fralda;
– encontra-se associada a mudanças comportamentais na criança, tais como choro intenso;
– se a erupção faz parte ou é resultado de um outro estado patológico;
– a pele encontra-se danificada ou apresenta ulceração, bolhas ou descamação;
– apresenta-se de forma crónica ou recorrente;
– está associada a condições de co-morbilidade, tais como: HIV, transplantação ou terapêutica imunossupressora, etc.1
Joana Viveiro
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